segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Dia de Gira

Já são 15 horas da segunda-feira e falta pouco tempo para começarem os trabalhos no terreiro. Ainda há tanta coisa a fazer: passar a roupa branca, tomar banho de ervas, pegar filho na escola, dar a janta, o banho, comer algo e, enfim, partir rumo à tenda espírita.

Pés no chão e roupa branca. O trabalho é caridade. Ganhamos méritos com Deus ou não. Depende da intenção que cada um tem ao ir trabalhar no terreiro. O brasileiro é esperto, tende a dar sempre um jeitinho e barganha a própria mãe com Deus para conseguir o que quer. Mas isso lá não cola. Talvez para Deus também não.

A tenda é muito simples. Lá dentro o chão é vermelho, de terra barrenta, sem luz elétrica (eles usam lamparinas) e logo de frente para os bancos onde fica o público, uma mesa larga, onde abriga um altar humilde, sem muitos adornos, apenas uma pequena imagem de Oxalá (Jesus) no centro, com copos de água ao redor. No chão, logo abaixo, outras pequenas imagens dos orixás (divindades da natureza), enfeitados com papel crepom.

Do lado de fora, velas acesas, pedidos e mais pedidos, clamores, de todos os jeitos, em tantos versos que até Deus se compadece com tanta lamúria. Começam os trabalhos.

Hoje é dia de gira de Preto-Velho. Acende-se o cachimbo, risca-se o ponto. A água é trazida e começa a entrar aquela gente toda desesperada com mais velas e mais pedidos. Tem dias que é um Deus-nos-acuda. E Ele corre pra ajudar a todos. Não é fácil ser Deus, penso eu. E para não incomodá-lo tanto, buscamos nossas forças interiores, que incrivelmente são tão potentes quanto nossa fé em Deus. Nós somos testados lá dentro. Nossa força de vontade é que dá o tom aos pontos cantados, aos trabalhos e à humildade que jamais pode faltar.

Os Pretos-Velhos devem se cansar tanto quanto Deus. Devem ouvir tanta coisa esdrúxula! Porisso são os mestres da paciência. Nunca se cansam. Eles rezam, curam, dão bênçãos e fazem verdadeiros milagres nas almas de tanta gente dura e corrompida pelas tristezas da vida.

Quando a gira acaba, os pés ficam imundos, mas a alma fica límpida como as águas d’Oxum. Chegar em casa amanhecendo, no torpor da alvorada, ver a paz de criança dormindo, o silêncio do dia ao acordar faz-me ter certeza de que Deus não só ajuda a todos que acendem velas e param em algum terreiro ou igreja em busca de ajuda, mas sempre estende as mãos a quem quer que seja.

Em casa, outro banho de erva é derramado sobre o corpo como prêmio. Mas não dá para relaxar muito. Já são 7h 30min de terça-feira e falta pouco tempo pra começar a aula.

Mais vale uma mandinga boa no coração do que uma galinha com farofa na encruza. É hora de estudar!!!

(Crônica para o professor e jornalista Severino Filho)

Segunda-feira, segundo post...


          Tinha pensado em rabiscar aqui todos os dias, mas hoje tudo parece estar conspirando contra qualquer atividade por mim exercida. É aquele dia em que o computador trava, o carro enguiça, o filho te decepciona, a laranja do suco estraga, o pão vence, todos os sinais fecham, a quina acerta seu mindinho, pisam no seu pé (em cima do mindinho já dolorido) e você, no caso eu,  já estou pra lá de murcha e um tanto desmotivada. Ainda são 16h e minhas segundas, teoricamente,  só terminam depois de 00:30, pós terreiro, ou seja, ainda tem 8 horas pra acontecer um bocado de coisas. Pudera eu com a varinha mágica do amigo Harry, poder fazer um avada kedavra no dia, subir na vassoura e voar pra terça. Eu não sou de reclamar de nenhum dia da semana e não tenho nada contra as segundas-feiras, entretanto, especificamente essa, está sendo pior (imagino eu) que parir um abacaxi. Tá sofrido, tá doído, tá pesado.
          Havia tanto a escrever, tantas ideias matutadas na minha saída do artista de ontem e, no entanto, até agora só saiu a exclamação de tantos bicos e testas franzidas do meu rosto. Talvez se eu fosse rica, comprasse um daqueles pacotes de massagem que colocam o pepino no olho, mas como sou apenas monitora de direção de arte, resta-me um banho quente às 19 horas pra tentar relaxar um pouco para aguentar até o final.
          Pelo menos o bebedouro do meu serviço não quebrou e a água que bebo é bem gelada e mata minha sede. Nada como uma pitada de PollyANNA pra tentar transformar esse dia perturbador num colorido tapete de tulipas. Tim tim! Arrivederci.

domingo, 2 de setembro de 2012

Sorriso de criança

Banco de imagens do Google
         Não existe nada mais honesto e digno que o sorriso de uma criança. Lê-se nos lábios sorridentes desses pequenos gênios da alegria, a simplicidade de existir num mundo cheio de cores e coisas interessantes a serem descobertas, e claro, apalpadas. Criança não esconde um sorriso ou uma lágrima. Elas expõem seus sentimentos. Criança não sorri pra agradar alguém.

          Ontem caminhando, cabisbaixa, me deparei com uma criança sorridente, no colo do pai, apontando para o topo de um prédio. O que havia lá? Nada, respondi imediatamente. Mas depois, intrigada com aquele sorriso doce e contagiante, voltei ao mesmo lugar e observei melhor. Notei que no topo do prédio havia antenas pontudas e compridas que balançavam com o vento. E fiquei a pensar: o que aquela criança imaginara daquelas antenas dançantes?

         Elas criam em seu próprio mundo arte e felicidade. Transformam coisas simples e insossas em algo cênico, lúdico e fantástico. E depois crescem.

           Somos as crianças de ontem. Temos dentro de nós um mundo já criado, cercado de imaginações e sonhos que se multiplicam com a quantidade de desejos que vamos percebendo e projetando para nós, ao longo da vida.

           Mas e o sorriso? Aprendemos a engolir um choro e a calar um olhar. A tragar o silêncio e sorrir pra esconder alguma dor. Talvez por isso, Peter Pan não quisesse crescer. Um sorriso é a janela dos sonhos. Por isso sorrimos satisfeitos quando algo bom nos acontece. Sentimo-nos realizados.

        Somos crianças crescidas. Temos as mesmas cores e vivemos no mesmo mundo, lúdico, cênico e fantástico que antes tanto nos impressionava. Tomara que possamos sorrir com mais sinceridade e colorir nosso e outros tantos mundos com o nosso sorriso. Da mesma forma como aquela pequena grande criança fez comigo.

Um sorriso muda o dia.

Oi.


          Eu sou estudante de publicidade que sempre escreveu na ânsia de expurgar do corpo e mente os sentimentos, sejam eles bons ou ruins, para ver-me livre de tantas emoções do dia-a-dia. Grande besteira. Isso é balela. 
          Muitas vezes não consigo escrever por ser bombardeada de muitos sentimentos que vêm de diferentes lados da minha vida. Eu tô mentindo pra quem? Bom, eu criei uma meta, eu acho. Preciso voltar a escrever sem as desculpas tolas que eu mesmo alimento. Preguiça é desculpa? Droga...

          Todo dia é dia de se fazer algo. E é sobre esse algo que eu vou escrever. Algo da vida, pour la vie,  sei lá... Nem eu mesma sei se isso vai dar certo. Já tive tantos blogues, tomara que esse vá pra frente.