Pés no chão e roupa branca. O trabalho é caridade. Ganhamos méritos com Deus ou não. Depende da intenção que cada um tem ao ir trabalhar no terreiro. O brasileiro é esperto, tende a dar sempre um jeitinho e barganha a própria mãe com Deus para conseguir o que quer. Mas isso lá não cola. Talvez para Deus também não.
A tenda é muito simples. Lá dentro o chão é vermelho, de terra barrenta, sem luz elétrica (eles usam lamparinas) e logo de frente para os bancos onde fica o público, uma mesa larga, onde abriga um altar humilde, sem muitos adornos, apenas uma pequena imagem de Oxalá (Jesus) no centro, com copos de água ao redor. No chão, logo abaixo, outras pequenas imagens dos orixás (divindades da natureza), enfeitados com papel crepom.
Do lado de fora, velas acesas, pedidos e mais pedidos, clamores, de todos os jeitos, em tantos versos que até Deus se compadece com tanta lamúria. Começam os trabalhos.
Hoje é dia de gira de Preto-Velho. Acende-se o cachimbo, risca-se o ponto. A água é trazida e começa a entrar aquela gente toda desesperada com mais velas e mais pedidos. Tem dias que é um Deus-nos-acuda. E Ele corre pra ajudar a todos. Não é fácil ser Deus, penso eu. E para não incomodá-lo tanto, buscamos nossas forças interiores, que incrivelmente são tão potentes quanto nossa fé em Deus. Nós somos testados lá dentro. Nossa força de vontade é que dá o tom aos pontos cantados, aos trabalhos e à humildade que jamais pode faltar.
Os Pretos-Velhos devem se cansar tanto quanto Deus. Devem ouvir tanta coisa esdrúxula! Porisso são os mestres da paciência. Nunca se cansam. Eles rezam, curam, dão bênçãos e fazem verdadeiros milagres nas almas de tanta gente dura e corrompida pelas tristezas da vida.
Quando a gira acaba, os pés ficam imundos, mas a alma fica límpida como as águas d’Oxum. Chegar em casa amanhecendo, no torpor da alvorada, ver a paz de criança dormindo, o silêncio do dia ao acordar faz-me ter certeza de que Deus não só ajuda a todos que acendem velas e param em algum terreiro ou igreja em busca de ajuda, mas sempre estende as mãos a quem quer que seja.
Em casa, outro banho de erva é derramado sobre o corpo como prêmio. Mas não dá para relaxar muito. Já são 7h 30min de terça-feira e falta pouco tempo pra começar a aula.
Mais vale uma mandinga boa no coração do que uma galinha com farofa na encruza. É hora de estudar!!!
(Crônica para o professor e jornalista Severino Filho)
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